domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Cidadão Português - O Manso!


Numa altura em que alguns cidadãos questionam os cortes salariais, os vencimentos surrealistas de muitos presidentes de empresas públicas, as constantes nomeações e mordomias políticas, os contínuos discursos absurdos e egocêntricos de muitos responsáveis políticos, o desemprego, as crescentes desigualdades sociais, e, no fundo, esta democracia totalitária apinhada de “glutões” que se deliciam neste regabofe, torna-se necessário tentar perceber por que razão o cidadão português é frequentemente acusado de ser um grandessíssimo manso. A História diz-nos que na Antiga Grécia o termo cidadão significava político, um habitante da polis, um participante responsável nas actividades públicas e detentor de direitos e deveres. Este conceito de cidadão participativo com direitos e deveres esteve - e ainda não estará? - ausente na nossa educação tradicional que fundamentalmente realçou os deveres. (Figueiredo: 2001), fruto de uma pedagogia “marcada pelo recurso a uma autoridade esmagadora (…) onde o educando tinha para com o educador não só obediência e respeito, mas também, frequentemente, temor” (Cabanas: 2002). Não é, pois, de pasmar esta afirmação de Monteiro (in Pereira: 2002): “Não nos iludamos… Esta escola primária – a minha – vitimizou, inexoravelmente, muitas pessoas. Mas também é indubitável – não obstante os traumas (muitos deles inconscientes) que perduram – que muitas recordações dessa escola acabaram por ficar no lado doce da memória de outros cidadãos… Nalguns casos tornaram-se até criaturas (aparentemente) normais e saudáveis. Algumas delas, optaram mesmo pela profissão de professor”. Progressivamente, com a Revolução Francesa e o seu lema «Liberdade, Igualdade, Fraternidade», a Escola foi influenciada (?) por pedagogias mais activas ou progressistas que atribuíam mais direitos à criança. A sua participação activa em várias tomadas de decisão na escola - e “há política a partir do momento em que são tomadas decisões” (Delplancke citado em Barbier:1996) - foi sendo vista cada vez mais como uma necessidade e exigência. Por isso mesmo, visando a educação para a participação nas instituições, serviços cívicos e o desenvolvimento ético ou moral do aluno, ou melhor, a preparação dos “alunos para o exercício da cidadania, permitindo-lhes a aquisição de competências parlamentares” (Marques: 1998) e uma introdução ao que Giddens (1997) chamou de “política de vida”, algumas escolas adoptaram paulatinamente a realização de assembleias de turma/escola, com a clara influência do método de comunidade justa criado por Kohlberg. Como nos diz Kenway (in Silva:1999): “a maioria das pessoas não tem a mais vaga ideia do que significa levar uma vida ética. Elas não compreendem a ética como uma base para se pensar sobre como devemos viver. Elas vivem, em geral, vidas dirigidas pelo auto-interesse”. Hoje em dia, impreterivelmente,já não é aceitável ser cidadão e limitarmo-nos àquele conceito de animal político de Aristóteles – concepção de cidadania de tradição cívico-republicana (Nogueira:Silva:2001) –, pois os fenómenos da imigração e do racismo, as desigualdades escolares e sociais, a exclusão social, entre outros, apelam a outro tipo de ética. Saber promover a empatia, saber fomentar o clima moral na sala de aula, saber envolver os alunos na acção moral como forma de criar hábitos positivos de solidariedade e cooperação visando o bem comum (Cunha: 1996), são agora tarefas indispensáveis nos estabelecimentos de ensino. Caberá assim à comunidade educativa celebrizar uma ética da solidariedade, isto é, criar contextos pedagógicos que gerem a compaixão, a tolerância e uma ética do risco, nos quais os alunos se distanciem das relações de poder que oprimem (Giroux in Guerra:2002). Dito de outro modo, a Escola deverá assumir-se como um local de partilha colectiva de opiniões e propostas (Alves:2001), de indivíduos de espírito pluralista e altruísta (Beltrão;Nascimento:2000), porque ela é um conjunto – viver, crescer, sorrir e aprender – onde se constrói o futuro das crianças, dos jovens e do país. Porque, não tenhamos dúvidas, é na escola que se ganha o sentido duradouro de que somos cidadãos pertencentes a uma comunidade democrática. É na escola que aprendemos a situarmo-nos no mundo, assumindo-nos como cidadãos do universal, preocupados com o que se passa à nossa volta e mobilizados para as grandes questões da actualidade: a defesa do Planeta e do ambiente, a paz, o desenvolvimento económico, científico e técnico ao serviço de todos os seres humanos, os direitos humanos, a igualdade entre mulheres e homens, o respeito pela diversidade cultural, a tolerância e o combate contra a exclusão, o racismo, a xenofobia, o chauvinismo e o fanatismo religioso (Henriques et al:2000).

Sem comentários:

Enviar um comentário